sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Refletindo sobre as doenças mentais

Sexta-feira, 29 de agosto de 2014

           Se achamos que é só na atualidade que as pessoas sofrem doenças mentais estamos enganados. Doenças mentais sempre existiram, e isso está em todos os textos antigos. Na Grécia, e na tradição ocidental, esses distúrbios eram relacionados com o desequilíbrio do que eles chamavam de quatro humores básicos (líquidos secretados pelo corpo, como sangue, bile amarela, fleuma e bile negra, e que eram tidos como determinantes das condições físicas e mentais do indivíduo), e eram semelhantes aos quatro elementos: ar (seco), fogo (calor), terra (frio) e água (umidade). O tratamento para essas condições era baseado nas combinações de extratos de ervas, para que se restabelece a harmonia e o desequilíbrio.
            Já nas sociedades agrícolas pré-industriais, as diferentes formas de comportamento dos indivíduos assim como os retardos mentais eram vistos de outra forma, apenas como uma variação humana, e não de forma anormal como vemos hoje. A classificação dessas condições diferentes de comportamento como doença mental é muito recente, e com essa classificação o número de sanatórios cresceu consideravelmente, de acordo com historiadores, entre os séculos XVIII até meados do século XX.
            Maneiras para diferenciar formas de distúrbios mentais começaram no fim só século XIX. A tradição de separar mente e corpo não é da atualidade, ela vem de tempos mais antigos e muitas vezes essa tradição foi aplicada de forma errada, pois com base em exames feitos em autópsias, ficou comprovado que algumas doenças teriam que ser sido tratadas de forma neurológica e não apenas de forma psicológica. Como exemplo podemos citar a ''paralisia geral do ''insano'', que muitas vezes era consequência de sífilis progressiva, e não de um distúrbio mental, entre muitos outros casos em que problemas mentais associados a doenças como bócio (aumento do volume da glândula tireoide, de caráter crônico) começaram a ser atribuídas a deficiências vitamínicas.
            Também no fim do século XIX, procurou-se com maior intensidade a categorização mais precisa das doenças mentais, que não poderiam estar relacionadas a fatores neurológicos (danos cerebrais). Essa procura está geralmente relacionada com Emil Kraepelin (psiquiatra alemão que é comumente citado como o criador da moderna psiquiatria, psicofarmacologia e genética psiquiátrica). Emil Kraepelin distinguiu perturbações transitórias( como depressão, ansiedade, distúrbios bipolar e afetivo), das que pareciam ser constantes. Essas perturbações mais constantes como alucinações e paranóias, formam chamadas de esquizofrenia, em 1911, por Eugen Bleuer (psiquiatra suíço que contribuiu de forma notável para o entendimento da esquizofrenia).
            A esquizofrenia geralmente afetava pessoas no fim da adolescência e se caracterizava por delírios, alucinações auditivas e a sensação de falta de controle sobre si mesmo, como se forças externas as controlassem através de comandos sonoros, e era diagnosticada duas vezes mais em pessoas das classes operárias do que na classe média. A sua existência não é aceita por todos os psiquiatras, alguns a vem como uma reação saudável a circunstâncias muito difíceis.
            O problema dos diagnósticos psiquiátricos ficou mais claro quando David Rosenhan (psicólogo estadunidense) fez uma experiência em que ele mesmo, três psicólogos, um pediatra, um psiquiatra, um pintor e uma dona de casa, sendo cinco homens e três mulheres, foram a hospitais psiquiátricos dizendo que estavam ouvindo vozes. Nenhum deles tinha antes sido considerado com problemas mentais e possuíam um vida bem estabelecida. A próxima instrução era que se comportassem de forma normal e dissessem que as vozes haviam cessado. O comportamento ''normal'' foi interpretado como ''anormal'' pelos médicos, e levou um tempo até eles terem alta dos hospitais. A classe psiquiátrica foi irada com aquela situação e Rosenhan disse que no próximo mês enviaria mais pseudopacientes aoshospitais. Com isso os hospitais disseram que haviam identificado 41 pseudopacinetes, e as internações caíram de forma significativa, mas na verdade Rosenhan declarou depois que não mandou nenhum pseudopaciente. Os psiquiatras afundaram ainda mais na armadilha de Rosenhan e ficou evidenciado que os diagnósticos eram sim questionáveis, sujeitos a falhas, e não verdades absolutas.
            Apesar dessa e de outras experiências semelhantes, de psiquiatras contrários a essas classificações e confinamentos em hospitais psiquiátricos, o número de casos diagnosticados de esquizofrenia cresceu muito, mas hoje, o que reina é a depressão e os distúrbios de ansiedade.

Descrição e tratamento

            Primeiramente pensava-se em intervenção comportamental (behaviorismo), e essa técnica passou a ser amplamente utilizada pelos psiquiatras. Depois com o avanço da tecnologia surgiu a lobotomia, que consistia na retirada de todo lobo frontal e dizia-se que depois desse procedimento as pessoas ficavam mais calmas e tratáveis. Esse procedimento teve seu declínio lá pelo fim dos anos 1950, com o desenvolvimento de substâncias psicoativas. No entanto a psicocirurgia continuou a ser usada em hospitais mentais e em prisões.
            Nessa época houve interesse também na observação de que quando se tiravam as amígdalas de roedores eles se tornavam menos agressivos, e isso começou a ser utilizado em humanos. Havia uma falta de refinamento nesse procedimento, afinal a neurotecnologia estava surgindo, e medidas menos invasivas já estavam surgindo, como o implante de eletrodos de simulação em regiões específicas do cérebro, e que eram controlados por rádio. 
            Depois disso desenvolveram-se muitos remédios psicotrópicos que realmente chamavam a atenção pela melhora significativa dos pacientes, mas com o tempo alguns desses remédios apresentavam efeitos colaterais irreversíveis, talvez devido a falta de conhecimento do que realmente estava acontecendo, de que se tratava esse distúrbio que a pessoa sofria, e consequentemente, de como agir da melhor maneira, e isso inclui o desenvolvimento de remédios mais adequados e eficazes. 
            Hoje em dia creio que o sistema de desenvolvimento de remédios seja mais evoluído, controlado, mas ainda sim corre-se o risco de reações adversas devido a pessoas diferentes reagiram de formas diferentes ao mesmo medicamento, e isso não pode ser previsto em laboratório. Então fica a questão: será que o uso do remédio é sempre a melhor escolha? É óbvio que ele ajuda e é indispensável em alguns casos, mas é válido pensarmos também que ele nem sempre será, sozinho, a ''cura'' para as doenças mentais.

Referência:
Rose, S. (2006) O cérebro no século XXI: como entender, manipular e desenvolver a mente. São Paulo: editora Globo.

Material extra:
Dois links de textos e parte de um artigo científico que achei relevantes para reflexão:


 http://www.cbpabp.org.br/english/?p=1051
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1392572


''2 – A medicação como elemento facilitador da convivência familiar
A maior parte dos entrevistados afirma que o uso de medicamentos mantém o doente mental estável e facilita a convivência no ambiente familiar. As manifestações abaixo apontam tais concepções:
(...) depois que ela toma o remédio de novo volta ao normal” (E1).
(...) mas quando ele continua o tratamento está bem” (E4).
(...) agora se ele não toma o remédio de noite ele não dorme (...) de vez em quando ele não quer tomar, daí tem que gritar com ele, daí toma, ele tem que tomar (...)” (E3).
Tais falas vêm ao encontro da afirmação de KOGA & FUREGATO (1998) que dizem que os familiares procuram o médico para adquirir receitas de medicamentos quando o doente mental piora. De acordo com a experiência familiar o uso de psicofármacos mostra-se eficiente nos momentos de agudização de sintomas psicóticos.
Esta concepção, muitas vezes, é reforçada pela equipe de saúde que atende o doente mental, centrando na medicação como o principal elemento terapêutico, como evidencia a fala a seguir:
(...) o médico disse que tem que tomar o remédio, se ele parar volta tudo” (E4).
A equipe de saúde, freqüentemente, só atenta para o que está acontecendo com a pessoa acometida pelo adoecer psicótico e com sua medicação. Reforça ao familiar que a única alternativa é o uso correto da medicação e muitas vezes esquece de se aproximar sesta família que também precisa de atenção e de acompanhamento adequado.
A equipe de saúde, no entendimento de Saraceno apud Moreno (2000), deve pensar em um todo e compreender a atenção em saúde mental como sendo “um processo de reconstrução, um exercício pleno da cidadania e também de plena contraturalidade nos três grandes cenários: habitat, rede social, trabalho com valor social”. Portanto, conforme os apontamentos do autor, a família faz parte do tripé que compõe os elementos necessários à intervenção junto ao doente mental. 
Por outro lado, um dos integrantes do estudo entende que o uso da medicação é importante mas não essencial. Na sua concepção, o convívio com a família é um fator primordial. O seu depoimento mostras esses aspectos:
É, eu sei que a medicação ajuda, mas ter só a medicação e não ter esse convívio (...). Eu acho que se não tem o todo, eles entram em crise, não adianta entupir eles de medicamento, não adianta, vai cair um dia (...)” (E 5).
A compreensão deste familiar vai ao encontro daquilo que acreditamos, pois sabemos da importância do uso de psicofármacos e do quanto eles auxiliam na redução de sintomas psicóticos. No entanto, o uso destes medicamentos, por si só, é pouco eficaz na recuperação de uma pessoa acometida por psicose. Essa concepção é reforçada por TOWNNSEND (2002, p.252) quando diz que “as medicações psicotrópicas se destinam a serem usadas como terapia adjuvante à terapia individual ou de grupo”.''                                                                                                                                               
Referência: http://www.fen.ufg.br/fen_revista/revista6_1/f6_mental.html                











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