sexta-feira, 10 de outubro de 2014

       Estudando o Suicídio


Sexta-feria, 10 de outubro de 2014

           Em uma perspectiva global o suicídio aumentou cerca de 60% nos últimos 45 anos, e esse aumento aconteceu também em Teresina, Piauí, não na mesma proporção, mas o bastante para motivar um estudo sobre o assunto, como forma de tentar prevenir, visto que houve um aumento no número de suicídios entre os idosos. Um fato interessante que encontrei nesse texto, que achei surpreendente, é que as chances de suicídio aumentam com a idade, ou seja, mais um motivo para esse estudo com intenção da prevenção.
            Esse estudo foi realizado com a ajuda de cinco famílias que perderam um parente com mais de 60 anos de idade por meio do autoextermínio, entre os anos de 2004 e 2009. A forma de investigação foi por meio de entrevistas, utilizando-se o Roteiro de Entrevista sobre Suicídio padronizada por Minayo et al., apropriada para o suicídio de idosos. Os familiares eram convidados desde que tivessem proximidade e conhecimento da vida pessoal, familiar, social e cultural da pessoa que tirou a própria vida. Os familiares foram contatados usando-se os laudos periciais emitidos após o óbito.
            Durante as análises feitas, o suicídio foi entendido como um fenômeno psicossocial, que se constitui como processo construído e potencializado no decorrer da vida do indivíduo. Em coerência com essa maneira de entender o fenômeno, foram desenvolvidas autópsias psicossociais a fim de se analisar os fatores que perpassaram cada caso.
            No caso 1, foi abordada a história da sra. Joana, que tinha sentimentos de insatisfações consigo própria, rejeição ao envelhecimento, relações afetivas e familiares conturbadas, e a busca contínua de um significado para a sua vida. Contribuiu de forma preponderante para o suicídio a existência de um transtorno mental, mais especificamente, um transtorno do humor, que é exemplificado no trecho transcrito abaixo:

Ela sempre demonstrou um humor muito
inconstante. A maior parte do tempo
apresentava uma euforia desmedida,
sorria desproporcionalmente e falava
bastante. Em um curto espaço de tempo,
demonstrava uma tristeza profunda,
como se toda a euforia que demonstrava
não fosse real. Constantemente desejava
morrer (Roberto, filho).”

            No caso 2 foi estudada a vida do sr. Joaquim, e foram constatados como fatores estressores a não aceitação do diagnóstico de câncer e as consequências negativas decorrentes do diagnóstico e do tratamento, ou seja, a impossibilidade que ele mantivesse o seu ritmo de vida boêmio e a sua vaidade. O outro estressor foi a decadência financeira, em que o idoso não podia mais manter seu padrão de vida que tanto valorizava, deixando-o mais vulnerável ao suicídio. Outros traços de sua personalidade que contribuíram para o ato foram a impulsividade, uso constante e excessivo de álcool e um histórico de vida marcado por conflitos familiares e relações afetivas conturbadas.

''Por tentar manter esse estilo de vida, meu
pai perdeu a casa em consequência de
dívidas. Chegou a pedir empréstimos a um
agiota, mas não conseguiu pagar e teve que
dar a casa, o único bem que ele tinha. Ele
teve dezenove imóveis, mas destruiu todo
o patrimônio, sem perceber, em noites fora
de casa. A cabeça dele era desequilibrada
(Patrícia, filha).''

            No caso 3, foi abordada a história da sra. Ana, que apresentou sofrimentos associados a um diagnóstico de depressão grave, caracterizado por humor deprimido, culpa, desesperança, sentimentos de inutilidade e pensamentos frequentes de morte e suicídio.

''Ela chorava bastante, parecia uma pessoa
muito triste. Quando perguntávamos
sobre o motivo do choro, dizia que não
sabia, mas que não queria mais continuar
vivendo. Ela evitava falar sobre o que sentia,
mas ficava claro que era solidão e angústia.
Não tinha prazer nenhum na vida (Juliana,
sobrinha).''

            Essa senhora, que foi a que mais me chocou pelo modo como morreu, colocando fim a própria vida através da carbonização do próprio corpo, causou desconforto na família, o que tornou ainda mais difícil o processo de luto.

''O que nós, familiares, não conseguimos
entender foi a forma tão dolorosa que
ela escolheu para tirar a própria vida.
Realmente, é difícil de entrar na nossa
cabeça que, depois de uma vida de
infelicidades, ela tenha escolhido morrer
de uma forma tão dolorosa, depois de ter
passado a vida inteira se cortando (Juliana,
sobrinha).''

            No caso 4, estudou- a história de vida do sr. João, que retrata sofrimentos relacionados ao uso excessivo de álcool, traços de personalidade agressivos e impulsivos, relações familiares conturbadas, introversão, não aceitação do envelhecimento e problemas financeiros no fim da vida.

''(...) A vida dele foi um inferno, cheia de
brigas e confusões. Passava a maior parte do
tempo bêbado e, quando estava sob efeito
do álcool, era agressivo. Mesmo quando
estava sóbrio, era impaciente e impulsivo
(Pedro, filho).''

            Pode-se nesse caso ressaltar a ocorrência de um estressor precipitador do suicídio, relacionado a um conflito familiar, sabendo-se que o suicídio ocorreu minutos depois que o idoso discutiu com a esposa, além de um outro fator que foi a notícia veiculada pela mídia de um jogador que havia cometido suicídio, que pode ter incentivado ainda mais o ato, como uma forma de modelo.

''Minha mãe me contou que, antes de
morrer, meu pai disse assim para ela: –
Você viu aquele jogador de futebol que se
matou, eu também posso fazer igualzinho
a ele. Do jeito que ele fez, deu certo. Acho
que isso encheu ele de coragem (Pedro,
filho).''

            No caso 5, a vida do sr. Carlos foi analisada, e observou-se sofrimentos e predisposições para o suicídio relacionados ao abuso do álcool, depressão, não aceitação do envelhecimento e sentimento de culpa referente à dependência alcoólica do filho. ''É comum a presença de vários
fatores estressantes ou potencializadores do sofrimento na reconstituição da vida de pessoas que cometeram suicídio, à medida que muitos deles já viviam em um contexto repleto de problemas psicossociais, ligado à existência de transtorno mental'' (Meleiro & Fráguas Junior, 2004).
            Em todos os casos de suicídio observou-se efeitos devastadores para a família, sendo um fator de predisposição para o suicídio ter um membro próximo que tirou a própria vida. ''Em suma, os suicídios ocorreram como resultado de vidas marcadas por intenso sofrimento psíquico, de ausência do sentido para vida e de desestruturação pessoal e familiar, potencializadas especialmente pela presença de um transtorno mental ou de alcoolismo. O suicídio é apenas o ponto máximo do sofrimento psíquico, e, comumente, a vida de uma pessoa que comete suicídio é trilhada por circunstâncias trágicas, caracterizando o processo como fenômeno construído e multideterminado (Fensterseifer & Werlang, 2006).''
            Com isso pode-se concluir que, por mais que a depressão e outros distúrbios mentais tenham um peso, a história de vida da pessoa tem que ser levada em consideração na hora de se analisar um suicídio, por ser decisiva para desencadear nesse ato extremo. O suicídio nunca tem apenas um fator estressor, e entender isso é de fundamental importância para se analisar um suicídio com uma visão mais holística e humilde.

Referência: Servio, S.M.T. e Cavalcante, A.C.S. (2013) Retratos de autópsias Psicossociais sobre suicídio de idosos em Teresina. Psicologia: ciência profissão, 33, 164-175.

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