sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Patologia do Tédio
Sexta-feira, 12 de setembro de 2014




            Durante a última guerra, haviam soldados que eram responsáveis por detectar submarinos alemães. Eles trabalhavam isolados observando uma tela de radar durante horas e, com o tempo houve um declínio no desempenhos dos operadores, a alguns submarinos não foram percebidos. Com isso houve um interesse de se estudar qual o efeito de atividades extremamente monótonas no ser humano.
            No estudo realizado por D. O. Hebb, que tinha como objetivo obter informações básicas de como os seres humanos reagem em situações onde não acontece absolutamente nada.
            As pessoas que participaram da pesquisa eras estudantes de colégio do sexo masculino, e que recebiam dólares por dia. Eles ficavam deitados numa cama, num cubículo iluminado horas por dia, pelo tempo que aguentassem com intervalos apenas para refeições e para ir ao banheiro. Usavam visores de plástico, que limitavam a visão das formas, luvas de algodão, para minimizar o tato e a audição era reduzida por um travesseiro e pelo som do ar condicionado.
            Antes, durante e depois do isolamento foram aplicados testes aos participantes, que mostraram que o desempenho dos sujeitos foi afetado pelo isolamento em ambiente monótono.
            À medida que os estudantes ficavam em isolamento, seus pensamentos iam se modificando. Alguns ficavam pensando no experimento, nos seus trabalhos, pensavam em acontecimentos do passado, tentavam lembrar, em mínimos detalhes, de filmes que já tinham visto, etc. Com o tempo, os sujeitos chegavam a um estado em que só conseguiam se concentrar com muito esforço, e alguns ''ficavam contentes em deixar a mente vagar''. Outros disseram: ''Minha mente ficou cheia de sons e cores e eu não podia controlá-la''.
            Algo que de início não chamou atenção mas que acabou sendo a mais importante faceta da pesquisa foram as visões/alucinações desenvolvidas pelos participantes.
            As alucinações dos participantes começaram em formas simples, como pontos de luz, linhas ou figuras geométricas. Depois as visões ficavam mais complexas, com padrões abstratos repetindo-se como um desenho na parede. Finalmente haviam cenas mais completas como uma fila de esquilos, com sacos nos ombros, marchando pelo campo visual, e os sujeitos tinham pouco controle sobre o conteúdo as alucinações.
            Essas alucinações nem sempre eram visuais, eram também sonoras e táteis, como um participante que ouvia repetidamente uma vitrola tocando, e outro que tinha a sensação de ter outra pessoa deitada com ele na cama. Uma descoberta bastante notável foi que quando os sujeitos saíram, depois de vários dias de isolamento, todo o quarto parecia estar em movimento.
            As modificações na atividade elétrica do cérebro desses sujeitos foram registradas, e havia uma tendência, depois do período de isolamento, ao aparecimento de ondas lentas, que estão normalmente presentes durante o sono, e além disso, as frequências na região de ritmo cerebral mais importantes diminuíram.
            


            Um ponto que achei muito interessante foi que os sujeitos pareciam bastante ansiosos por estimulação, e quando saiam para as refeições eram bastante tagarelas e queria induzir os experimentadores a conversa. Nesse ponto eles podiam falar sozinhos, assobiar, cantar e recitar poesias.
            A exposição prolongada a um ambiente monótono tem, então, efeitos nocivos à saúde. O raciocínio do indivíduo é perturbado, ele mostra respostas emocionais infantis, sua percepção visual fica alterada, ele sofre de alucinações e modifica-se o padrão de suas ondas cerebrais.
            Como exemplo prático temos o caso de caminhoneiros que viajam a longas distâncias, e depois de muitas horas, eles podem começar a ver aparições como gigantescas aranhas no para-brisa e animais atravessando a estrada, o que pode provocar acidentes e não é improvável que alguns acidentes aéreos e rodoviários sem explicação possam tem sido provocados por efeito da estimulação monótona prolongada.
            Um ambiente sensorial variável parece ser de suma importância para os seres humanos, pois sem isso o cérebro pára de funcionar de forma adequada e desenvolve-se anormalidades de comportamento.


Fonte: Heron, W. (1977) A patologia do tédio.Psicobiologia: as bases biologicas do comportamento.Rio De Janeiro: LTC
As possibilidades do Tato






Sexta-feira, 12 de setembro de 2014
            Hoje falaremos sobre o tato, um sentido muitas vezes desprezado por nós, mas que para alguns cientistas tem sido objeto de estudo para desenvolvimento, por exemplo, de um macacão que ajude pilotos a se orientarem no ar, a saberem, por exemplo, onde está o chão e onde está o céu.
            Esse macacão dispões de 32 tatores pneumáticos (vibradores impulsionados por um pulso de ar), cada um com cerca de um centímetro e meio de diâmetro e alguns milímetros de espessura, que ficam dispostos em torno do dorso, com intervalos de dois centímetros entre cada um. Os tatores são ativados por um motor que dispara os jatos de ar de acordo com determinações eletrônicas dos instrumentos da cabine. Assim, o piloto recebe informação tátil sobre a altitude, inclinação, e velocidade relativa do avião


             A função mais marcante do macacão, contudo, é ajudar a distinguir entre as sensações de "em cima" e "embaixo" no vôo. Acredita-se que a maioria dos pilotos que morreu na Guerra do Golfo, morreu por não conseguir identificar qual era o lado de “cima". Cerca de 30% das colisões aéreas civis foram atribuídas à desorientação espacial. Saber onde está o chão envolve informações complexas e, o mais importante, contínuas, recebidas por nossos sentidos, e em certas situações, essas informações podem ser enganosas.
            Um ponto bastante marcante desse macacão é que quando se usa, a resposta vem de forma intuitiva, o piloto não precisa pensar para responder ao estímulo. Ex: quando o avião se inclina para a frente, fortes vibrações na frente do traje praticamente forçam o piloto a corrigir a posição. Se o aparelho estiver se inclinando lateralmente para a direita, as vibrações se movem da cintura para a região da axila direita do traje. Se o nariz da aeronave estiver empinado demais, haverá vibrações na parte posterior do pescoço. A resposta instintiva a cada um desses estímulos é a correta: a reação automática é a de corrigir movimentos involuntários.
            O sistema é tão eficiente na transmissão de informações que permite que os pilotos militares voem vendados depois de apenas alguns minutos de treinamento. Os macacões também podem alertar os pilotos sobre a aproximação de inimigos: uma pressão sobre a área correta do corpo gera uma compreensão instintiva sobre a direção exata de aproximação de uma aeronave inimiga.
O macacão nos automóveis

            Outras aplicações dos macacões tácteis estão sendo desenvolvidas para uso também em baixo d'água, em mares muito escuros, e também no espaço para ajudar os astronautas a se orientarem melhor em suas caminhadas espaciais.

O macacão nos automóveis




            A Nissan e a Honda estão ajudando uma equipe na Universidade Perdue a desenvolver sistemas táteis para seus automóveis. Os sistemas estariam ligados a aparelhos de radar de curto alcance e alertariam fisicamente ao motorista quando algo se aproximasse demais do carro. Se uma criança aparecesse correndo na frente do carro, por exemplo, o sistema propiciaria um forte toque no peito do motorista, proveniente de tatores instalados no cinto de segurança. Sistema semelhante advertiria caminhoneiros dando a ré às cegas de que estão prestes a bater em alguma coisa. Uma pesquisa realizada na Universidade Perdue demonstrou que os tempos de reação podem cair à metade quando a informação tátil substitui o estímulo visual direto -uma melhora que poderia salvar vidas. 
            Existem pesquisas nessa área que podem beneficiar também pessoas com deficiência visual. O cinto táctil seria ligado a um sistema GPS, e as vibrações do cinto conduziriam a pessoa ao seu destino. O método poderia substituir sistemas de navegação que usam sons, que podem ser perigosos ao ter o potencial de desviar a atenção do usuário de barulhos como um carro se aproximando.
            Contudo, ninguém desenvolveu tatores tão versáteis até o momento, e o mercado para esse tipo de aparelho não ajuda a acelerar as pesquisas. No entanto, o mais recente setor a aproveitar o potencial do toque poderá causar grande impacto na tecnologia tátil. Um psicólogo experimental quer desenvolver vibradores que criem “melodias” vibratórias em telefones celulares. Ele e sua equipe vêm executando testes para ver com que facilidade as pessoas reconhecem o ritmo de uma canção em forma táctil. Um dia, o telefone celular de uma pessoa pode ser programado para executar uma canção brega de amor em forma tátil quando seu amado ligar, e o ritmo sombrio da Marcha Fúnebre quando o telefonema vier do escritório.
            Enfim, as possibilidades, como vimos são inúmeros, e acredito que não se resumem a esse texto.

Abraço e até a próxima.

Fonte: SchropeM. (2001). O novo sentido do tatoNew Scientist2 de Junho, 30-33.